
MessAleena Harsley nasceu há 24 anos atrás. Seus pais haviam se conhecido no Rio de Janeiro um ano antes de seu nascimento e, devido ao excesso de tradicionalismo da família de sua mãe, que jamais aceitaria ver uma "peça" de seu "clã" casada com um mochileiro hipponga norte-americano, eles fugiram juntos para Ouro Preto, em Minas Gerais. Entretanto, com o nascimento de Messy (NT: Messy = bagunçado, bagunceiro [inglês]), como era carinhosamente chamada por seus pais (e no futuro por todos que a conhecessem), devido a seu cabelo rebelde e seu constante inconformismo com qualquer tipo de regra, algum adormecido senso de "responsabilidade" em sua mãe levou o casal e a pequena de volta ao Rio, onde, acreditava a Sra. Hyeres Harsley, teriam uma vida mais estável.
Messy cresceu em meio a extremos: de um lado, a aristocrática família de sua mãe ensinando-lhe como uma "moça" deveria se comportar, ditando com qual tipo de pessoas ela deveria se relacionar, cobrindo-a com imagens de um futuro de luxo, filhos e obrigações domésticas; do outro estava seu pai, dizendo-lhe que as pessoas deveriam ser consideradas pelo que eram, não pelo que tinham. Por inúmeras vezes, quando adolescente, MessAleena espiou por vãos de portas o sofrimento e as lágrimas de sua mãe, sempre dividida entre o conforto material que a família poderia oferecer e o amor de sua vida, que lhe acendia o desejo de ideais mais nobres.
Todos esses dilemas, vividos e presenciados durante tantos anos de sua vida, foram construindo (e como ela mesma gosta de dizer: "re-re e re-construindo") uma personalidade ímpar: MessAleena sente um respeito incondicional e pode-se até dizer um amor extremo por toda pessoa, e não admite qualquer espécie de preconceito, discriminação, covardia ou injustiça contra quem quer que seja, mesmo um estranho que tenha acabado de cruzar seu caminho. Ao mesmo tempo, as rejeições e mesmo os ataques diretos que sofreu seguidamente por parte da família de sua mãe, tornaram-na uma pessoa solitária, dada ao isolamento, e com um sentimento de ódio e um desejo de vingança tão profundos, que muitas vezes ela mesma se assusta com suas atitudes intempestivas e suas reações violentas. MessAleena sempre dizia que se afastava da humanidade para poder continuar amando-a.
Sua natureza alternativa levou-a a cultivar amizades, apesar de poucas, com artistas, especialmente os marginais, independentes, que segundo ela produziam uma espécie de arte descompromissada, livre das amarras das academias, conservatórios e afins. Por esse e outros tantos motivos, crsceu como um espírito livre e quase hedonista. Acreditava e defendia o direito e até mesmo o dever da satisfação dos desejos dos sentidos, sem a limitação dos modelos heteronormativos vigentes.
E foi exatamente por causa de relacionamentos com pessoas de ambos os sexos e da amizade com pessoas que defendiam essa mesma liberdade que MessAleena teve seu primeiro contato com os movimentos sociais, mais especificamente com o Grupo Arco-Íris - de defesa dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) no Rio de Janeiro. Mas esse foi apenas um flerte momentâneo, uma experiência que ficaria gravada em sua memória e afetaria - e muito! - seu futuro.
Aos 17 anos, quando se formou no ensino médio, MessAleena contrariou todas as expectativas e decidiu que não entraria para a faculdade, para nenhuma. A notícia caiu como uma bomba, especialmente na família de sua mãe. A jovem era a mais brilhante aluna de seu colégio e teve oportunidades nas melhores faculdades, mesmo no exterior. Porém, sem dar a mínima para isso, ela arrumou suas coisas, deixou um bilhete para seus pais dizendo o quanto os amava e que ficaria bem, e sumiu no mundo. Há muito, Messy sentia um vazio em si, uma sensação de que ainda não havia encontrado o lugar ao qual pertencia. E como não sabia seu lugar, decidiu que era hora de se mover.
Muito despretensiosamente, e mesmo por já haver visitado diversos países com seus pais, namorados, namoradas e amigos, ela resolveu rodar pelo seu próprio país. Viajou de norte a sul, ganhou dinheiro (apenas o suficiente para sobreviver, como faz questão de ressaltar!!!) de todas as formas que conseguiu. Foi ao Acre, Tocantins, Goiás, Mato Grossos, Bahia, Fortaleza, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, São Paulo... Fez artesanato com hippies nas praias, foi garçonete, segurança de boate, stripper, garota de programa... Mas não conseguia se encontrar, nada lhe satisfazia, nunca era o seu lugar.
Dois anos haviam se passado e, quando estava prestes a desistir e voltar para o seu bom e velho Rio de Janeiro, levando consigo apenas a (convenhamos, nada insignificante) experiência de haver convivido com tanta diversidade social, cultural, sexual, religiosa, filosófica, política e muito mais, o que aumentou ainda mais seu desejo de lutar pelos direitos dos desfavorecidos, Messy decidiu dar uma passada pela reacionária Minas Gerais, a terra natal que ela não chegou a conhecer.
E foi precisamente em Ouro Preto que Messy (nome que ela em breve adotaria como seu, fazendo com que muitos nem soubessem seu primeiro nome completo) finalmente encontrou seu lugar. Parecia-lhe que cada pedra daquela cidade chamava seu nome! Rapidamente, ela começou a se relacionar com os artistas e os estudantes da cidade, e isso levou-a de volta aos movimentos sociais.
Inicialmente, como seria natural, ela juntou-se aos LGBT da cidade. Entretanto, o contato com as disparidades sociais de seu novo lar, onde estudantes ricos e moradores locais que lutavam arduamente para ganhar salários miseráveis conviviam dia a dia, acabou levando a moça a unir-se a movimentos de classe locais. Apesar de sua pouca idade, sua profunda experiência de vida levou-a, em muito pouco tempo, a líder da Associação de Moradores de Ouro Preto.
Os planos de um dia frequentar a faculdade e dar a alegria de vê-la com um diploma a seus tão amados pais havia sido praticamente esquecida quando, conversando com Ricardo e Ana, seus companheiros de militância e amantes prediletos, eles a fizeram ver que melhor seria combater o sistema do lado de dentro dele. Uma inteligência admirável como a dela não devia ser desperdiçada. Além disso, um título acadêmico lhe daria a oportunidade de entrar em meios onde ela poderia realmente fazer com que algo mudasse.
Convicta de que as seduções acadêmicas jamais a afastariam de seus nobres e honrados ideiais, e feliz por poder dar essa alegria a seus pais, ela prestou vestibular para o curso de Ciências Sociais para a Universidade Federal de Ouro Preto e passou (em primeiro lugar geral, cabe aqui comentar, apesar desse fato ser escondido e até negado por ela) no final de 2005.
Messy decidiu, então, voltar ao Rio de Janeiro, rever seus pais, contar-lhes que estava bem e quais eram as novidades. Apesar de haver deixado todos para trás, ela amava seus pais intensamente e costumava dizer que não imaginava um mundo em que eles não estivessem. Pode-se imaginar, então, quão profunda foi a dor que ela sentiu quando descobriu que seus pais haviam morrido num acidente de carro há pouco menos de dois meses.
A família de sua mãe (assim referida pois ela mesma sempre declarou abertamente que essa não era nem nunca havia sido a sua família) massacrou-a com acusações de que ela havia sido responsável pela morte de seus pais, por tê-los abandonado, e ela não respondeu a nenhuma delas. Messy apenas juntou suas coisas, pegou as alianças do pai e da mãe e voltou para Ouro Preto.
Quem olha para Messy, pensa que nada mudou. Ela guarda ainda hoje as mesmas convicções, a mesma energia em tudo o que faz, mas seus amigos Ricardo e Ana, os únicos que podem realmente dizer que partilham de parte de sua intimidade (pois Messy sempre aquela manteve distância entre sua vida pessoal e as pessoas, e provavelmente sempre manterá), contam que ela teve uma mudança brutal. Ricardo diz que quando Messy voltou a Ouro Preto, ela tinha a mesma disposição e só falava dos planos para o futuro, mas seus olhos pareciam buracos muito escuros e profundos, como buracos negros que fascinavam ainda mais a todos que conseguiam se aproximar dela, mas eram totalmente vazios, desprovidos de qualquer alma. Ele disse ter a impressão de que MessAleena Harsley estava para sempre morta, enterrada no túmulo de seus pais. Muitas vezes, Messy foi vista com profundos cortes pelo corpo ou com uma parte da roupa molhada de sangue e, apesar de ela declarar que se machuca constantemente ao cozinhar, por ser extremamente desastrada, os que tanto a querem bem desconfiam que essa dor é auto-infligida, como punição pela morte de seus pais.
Por esse motivo, ou mesmo porque a faculdade a fez reafirmar sua noção de que seus ideiais eram tão puros que não poderiam ser entendidos por pessoas normais, Messy se afastou cada vez mais da convivência social. As pessoas eram para ela divididas em três categorias: objetos de estudo, desfavorecidos cujos direitos ela deveria defender ou infratores de seu código de honra que ela deveria punir. Messy era adorada pelos moradores da cidade, admirada pelos professores de sua faculdade (desde o segundo ano ela publicava artigos e era convidada a apresentar seus trabalhos acadêmicos e de militância por todo o país) e odiada pelas autoridades locais. Muitos temiam por sua vida; ela parecia não se importar.
Estamos agora em 2009: último ano de faculdade de Messy; o ano da (maldita, famigerada) monografia. Messy poderia facilmente usar um de seus muitos artigos para montar o trabalho, mas se recusava a plagiar até mesmo a si própria. Ela estava consumida pelas dúvidas...
Até que um dia, há uns três meses, lembrou-se de um texto que havia lido para a disciplina de História Brasileira, que cursou na faculdade por mera curiosidade. Esse texto contava um pouco da história do ciclo do ouro em Minas Gerais, e relatava uma história acontecida naquela mesma cidade. Tratava de um rebelde do povo, chamado Felipe dos Santos, que havia sido enforcado e esquartejado por ter ousado se colocar contra o governo de então. Mas não foi exatamente o rapaz que lhe chamou a atenção...
Nesse texto, era citada uma mulher, chamada Priskui Low. O pouco que se sabia sobre ela era que havia nascido numa aristocrática família portuguesa que mudara para o Brasil no século XVIII e que, por amor a Felipe e às causas sociais, teve que se mudar da então Vila Rica sob ameaça de morte logo após haver assistido à execução de seu amado. A lembrança da história de inconformismo, rebeldia e luta dessa mulher falaram tão alto ao seu coração que ela começou a pesquisa no mesmo dia.
Alguns documentos foram encontrados na própria cidade e outros (também poucos) no resto do Brasil e no exterior, com a ajuda dos muitos amigos que havia feito, e ela havia conseguido montar uma pesquisa tão consistente que, apesar de ainda faltarem cinco meses para a entrega de sua monografia, ela já havia publicado dois artigos sobre o tema.
Uma coisa, porém, lhe intrigava: o fim da vida de Priskui Low era absolutamente desconhecido! Então, qual não foi sua surpresa quando, após uma transa deliciosa com uma estudante da cidade que havia conhecido há uns três dias, seu celular toca e ela vê um número estranho e desconhecido na tela. Curiosa, ela atende o telefone e precisa se sentar para não desmaiar quando a mulher ao telefone (que vozinha dengosa ela tinha!) se identifica como uma descendente de Priskui Low. A moça (ou seria uma menina, com aquela voz?), que tinha o mesmo nome da tatata(e sabe-se lá quantos mais tatas)ravó, disse que havia ficado muito honrada com a pesquisa que Messy havia feito sobre sua valente ancestral. Ofereceu-se, então, para fornecer-lhe mais informações que poderiam auxiliar sua pesquisa e convidou-a a passar alguns dias em sua casa, na cidade de Lendas Urbanas.
Messy arrumou umas poucas coisas e partiu no dia seguinte. Quando chegou, foi recebida por Priskui, que conduziu-a a um teatro. O teatro era maravilhoso, uma construção digna de nota, por onde circulavam muitas pessoas. Entretanto, quem mais a impressionou foi a própria Priskui Low! Ela era uma menina de voz doce, mas parecia carregar a sabedoria de centenas de anos nos olhos.
Priskui mostrou-se interessada pela pesquisa, ouviu com atenção e respondeu a todas as perguntas de Messy, que sentia-se cada vez mais hipnotizada por ela. Borboletas voavam furiosamente em seu ventre a cada palavra da menina!!!
A sabedoria daquela moça era irrevogável, mas foi uma frase de Priskui que fez com que Messy percebesse que havia nascido em si um sentimento que ela jamais havia experimentado em relação a ser humano nenhum. Priskui disse: "A mudança é sagrada, a estagnação é profana".
Estas poucas palavras que podem parecer simples para muitos, resumiam a inquietação com a qual Messy convivera durante toda a sua vida!
Quem era aquela menina tão sábia com voz de criança? E mais, que sentimento estranho era aquele que brotava na alma de Messy? Era isso o amor? Ou será que finalmente ela havia descoberto um ser humano que podia admirar?
"Quero viver sem ser capaz de responder a tudo."
8 comentários:
realmente, sua vida não é exemplo pra ninguém.
Eu nunca pretendi que fosse.
Aliás, espero mesmo que ninguém seja louco o suficiente para achar que é.
De fato, quem é capaz de estuprar e mutilar a si mesma (quantas vezes, mesmo?) só pra chamar a atenção, só pra construir uma história incomum e fantasiar estar à parte do resto da humanidade, não serve como exemplo. Deve ter uma imagem muito ruim de si pra ter de criar tantas histórias fantásticas de crimes, sofrimento, dor, abusos, crueldades, genialidades etc., etc...
:D
Agora que vc descobriu o meu segredo, não esqueça de divugá-lo! Quem sabe assim finalmente as pessoas (incluindo você) larguem do meu pé e me deixem viver do jeito que eu quero?
Ah, vc só errou uma coisa: eu sou tão humano quanto todas as pessoas.
Só gosto de estar só.
Uhuuuu! Ae, colegas do anonimato: a-ha-zaaaando! Hehehe
..."gosta de estar só", mas persegue a AP como um carrapato... estranho, não?
Eu acho que vc está equivocad@ sobre quem persegue quem... Mas vc não vai acreditar nisso, vai?
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